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Cultura · Final do século XIX · 6 min de leitura

As camisas dos times: de uniformes de fábrica a manto sagrado

Listras, cores, escudos bordados no peito. Como uma simples roupa de algodão virou o símbolo mais amado de cada torcedor.

As camisas dos times: de uniformes de fábrica a manto sagrado

No início do futebol, lá pelas décadas de 1860 e 1870, os jogadores entravam em campo com o que tinham: camisas de algodão grosso, calças até o joelho, bonés e até gravatas. Não havia uniforme oficial. Para distinguir os times durante as primeiras partidas inglesas, usavam-se faixas coloridas no braço ou bonés de cores diferentes — algo bem parecido com os coletes da pelada de hoje.

À medida que os clubes começaram a se organizar, surgiu a necessidade de uma identidade visual. Muitos times nasceram dentro de fábricas, escolas e paróquias, e adotaram as cores desses ambientes. O Arsenal, por exemplo, usa vermelho porque foi presenteado com um lote de camisas pelo Nottingham Forest em 1886. O Juventus veste preto e branco porque um dos fundadores trouxe da Inglaterra camisas listradas do Notts County, e elas simplesmente ficaram.

No Brasil, a história é igualmente curiosa. As cores do Flamengo vieram da junção do vermelho e preto escolhidos pelos remadores fundadores. O Palmeiras, então Palestra Itália, adotou o verde da bandeira italiana. O Corinthians escolheu o branco e preto inspirado nos uniformes do Corinthian FC inglês, que excursionou pelo país em 1910. Cada cor carrega uma origem, uma história de bairro, de imigração ou de homenagem.

Os escudos vieram depois. No começo eram bordados à mão, simples, com iniciais do clube. Com o tempo viraram brasões cheios de simbolismo: estrelas representando títulos, ramos de louro, animais totêmicos, datas de fundação. O escudo é a certidão de nascimento do clube costurada no peito.

A camisa também mudou de material e de função. Saiu do algodão pesado, que pesava o dobro quando molhado de suor, para tecidos sintéticos leves e respiráveis. Ganhou números nas costas (oficialmente a partir da Copa de 1954), nomes de jogadores, patrocínios — e, com isso, virou também um produto. Mas, para o torcedor, continua sendo o que sempre foi: o manto. A peça de roupa que se veste no domingo para sofrer, vibrar, abraçar estranhos e, no fim, sentir que pertence a algo maior.

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